O Airacobra esquecido da ETAV


História e Desenvolvimento. 

Em fevereiro de 1937 o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos em decorrência do aumento das tensões na Europa, emitiu um requerimento visando o desenvolvimento de um novo caça interceptador para altas altitudes, entre os parâmetros do projeto a aeronave deveria ser dotada de um motor Allison de refrigeração liquida, equipado com turbo compressor, trem de pouso triciclo e armamento de grande calibre, devendo apresentar uma velocidade máxima de 580 km/h, este conjunto de especificações se mostravam até então as mais rigorosas e ousadas já solicitadas pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) à indústria aeronáutica americana.

Entre as propostas entregues a Bell Aircraft apresentou seu projeto designado XP-39, que tinha como característica principal a disposição central do motor Allison V-12 que tracionava o eixo da hélice sob o piso da cabine do piloto, esta solução técnica visava garantir espaço na parte frontal da aeronave para a instalação do canhão Oldsmobile T9 de 37mm que compunha o principal armamento da aeronave. O primeiro protótipo alçou voo em 06 de abril de 1938 atingindo a velocidade máxima de 630 km/h a 20.000 pés , atingindo esta altitude em 5 minutos, porém o projeto apresentava alto arrasto aerodinâmico o que exigia que o sistema de turbo compressor fosse instalado internamente porém não havia espaço interno para esta mudança, esta temática gerou inúmeras discordâncias  entre os engenheiros da Bell e  a equipe militares envolvidas no projeto, culminando da encomenda inicial de 12 unidades sem o turbo compressor que seriam empregadas para testes e avaliações, este modelo receberia a designação de XP-39A, sendo submetidos a ensaios no ano de 1939, os resultados obtidos geraram a necessidade de novas alterações que culminariam na versão XP-39B.

Visando o aumento da produtividade em larga escala e a facilidade de manutenção no campo de batalha a nova versão   P-39C foi dotada com um compressor de velocidade única, que infelizmente limitou em muito o desempenho da aeronave como interceptador em médias e altas altitudes, mesmo assim foram encomendadas 80 células, que logo que recebidas foram empregadas no teatro de operações europeu, onde a falta de blindagem e tanques auto selantes resultaram em um desempenho completamente inadequado. Esta realidade gerou novos aperfeiçoamentos resultando na versão P-39D, modelo que seria adotado em larga escala pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) e em seguida pela Real Força Aérea Britânica mediante a encomenda de 675 células.

O emprego em combate pela RAF com o codinome de Airacobra, no teatro europeu apresentou resultados medíocres face aos caças da Força Aérea Alemã, direcionando as células não entregues para a União Soviética, que até o termino do conflito receberia através dos termos do Leand Lease Act , 4.719 aeronaves que apresentaram os melhores resultando em combate do modelo em toda a Segunda Guerra Mundial.

O batismo de fogo dos P-39D da USAAC aconteceu no teatro de operações do Pacifico no início de 1942, onde se mostraram novamente inferiores a seus opositores agora os Zero Japoneses, porém mesmo assim apresentaram mesmo em desvantagem de desempenho lograram inúmeras vitorias, quando conduzidos por pilotos habilidosos. A partir de 1942 a adoção de novos modelos relegou os P-39D a missões de formação. Lotes excedentes deste processo proporcionaram o fornecimento de células para nações aliadas como a Austrália, França e a Itália Co Beligerante. No pós-guerra o modelo permaneceu em operação nestes países até o início da década de 1950. Entre 1940 e maio de 1944 foram construídas 9.588 células em diferentes versões entre elas o P-63 King Cobra.

Emprego no Brasil. 

A participação brasileira no esforço aliado na II Guerra Mundial, determinou a criação de instituições de ensino especializadas visando a formação de técnicos em operação e manutenção de todo o recente material bélico de origem norte americana, que vinha sendo recebido mediante a criação Força Aérea Brasileira em 1941 através dos termos do Leand Lease Act (Lei de Empréstimos e Arredamentos).

Entre estas unidades destacamos a Escola Técnica de Aviação, sediada no bairro da Moóca em na cidade de São Paulo – SP, que passaria a receber um grande número de aeronaves para instrução em solo, entre eles uma célula do modelo P-39D Airacobra  classificada como “War-Weary” (Cansada de Guerra) que seria destinada ao ensino de sistemas elétricos e grupo motriz, Por se tratar do recebimento de apenas uma célula do P-39 pela Força Aérea Brasileira, quase não há registros oficiais ou fotográficos em maiores detalhes de seu emprego no pais, sabemos que se tratava da versão "Delta 1" Model 14A, variante da qual foram construídas 365 unidades, destinadas a exportação nos termos do Leand Lease Act com destino inicial a Inglaterra e depois posteriormente União Soviética, porém até o presente momento descobrimos apenas fotos de baixa qualidade quando de seu uso para instrução em solo por alunos.

Como dito anteriormente, não existem registros consistentes sobre esta célula no Brasil, pesquisas em arquivos americanos apontam que esta aeronave portava a matricula “USAAC 41-6914" ostentando o padrão de pintura da Real Força Aérea Britânica (devendo pertencer originalmente a algum lote destinado a RAF) portando assim marcações americana. A aeronave estava originalmente baseada em Porto Rico em uma das unidades da reserva, e veio a sofrer um acidente em operação, por não apresentar graves danos a célula foi reparada e decidiu-se pelo repasse da mesma a Força Aérea Brasileira, sendo translada em 1943 em voo por um oficial americano. Após seu recebimento a mesma foi incorporada ao acervo da ETAV, em 1953 com a transferência da instituição para a cidade de Guaratinguetá e sua consequente fusão com a Escolas de Especialistas da Aeronáutica (EEAR), todo o acervo de aeronaves foi avaliado para as tarefas de instrução em solo, e a célula do P-39D Airacobra foi destinada ao sucateamento, sendo que apenas alguns instrumentos e o componentes foram conservados no intuito de manter a instrução dos futuros especialistas da aeronáutica, somente seu motor foi preservado e hoje encontra-se exposto no Musal.


Em Escala.

Para representarmos o P-39D "41-6914" (a aeronave não recebeu matricula nacional) fizemos uso do antigo, porém razoável kit da Monogram na escala 1/48, que apresenta em seu detalhamento a possibilidade de exibirmos detalhes do motor e armamentos. Como dito anteriormente a falta de referências sobre este modelo e a existência de apenas duas fotos do mesmo no Brasil, nos concedem a licença poética para configurarmos este modelo neste contexto, mantendo o padrão de pintura inglês, numerais originais americanos e marcações da FAB (não podendo afirmar se foram aplicas estas últimas). Empregamos decais do fabricante FCM, oriundos de diversos sets para completar o trabalho.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura original da Real Força Aérea (RAF) com a adoção de matricula e marcações da USAAC, quando do seu recebimento no Brasil, sendo este padrão mantido até o sucateamento da célula em 1943.


Bibliografia :

- Bell P-39 Airacobra  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Bell_P-39_Airacobra
- Escolta Técnica de Aviação - Portal da MoócaA
- José de Alvarenga - Arquivos
- Aviação Militar Brasileira 1916 / 1984 - Francisco C. Pereira Netto